Os acessórios de amamentação são úteis ou prejudiciais?

Edson Vieira da Cunha Filho
Gustavo dos Santos Raupp
Vitória Lucietto Piccinini

Os benefícios da amamentação, tanto para mãe quanto para o recém nascido são, há muito tempo, bastante conhecidos e estabelecidos. O aleitamento materno é o mais sensato método natural de vínculo, proteção e nutrição para a criança e estabelece a mais sensível, econômica e eficiente intervenção na redução da morbidade e mortalidade infantil, além de ser parte integral do processo reprodutivo feminino, com importantes implicações para a saúde materna. Espera-se, portanto, que os profissionais da saúde trabalhem e empenhem seus esforços no intuito de promover o aleitamento materno e de minimizar fatores que possam diminuir o tempo de aleitamento e levar ao
desmame precoce.

O período puerperal pode ser desafiante para a mulher, especialmente relacionado à amamentação, uma vez que se inicia um novo processo fisiológico. Entre os desafios enfrentados pela lactante estão a mastite, o ingurgitamento
mamário, a falta de protrusão do mamilo, o desconforto e a dor mamilar nos primeiros dias da amamentação, sendo o trauma mamilar, a causa mais comum de abandono do aleitamento materno. Além disso, outros fatores podem levar ao seu desestímulo pelo período adequado, como a separação obrigatória de recém-nascidos prematuros e a jornada de trabalho que compromete o horário de amamentação. A fim de solucionar tais problemas e, por conseguinte, diminuir as taxas de desmame precoce do seio materno, existem dispositivos que podem
facilitar o processo de amamentação, tais como as máquinas de sucção para retirada de leite, protetores mamilares/mamilos intermediários e conchas areolares.

As evidências científicas que suportam o uso destes acessórios ainda são fracas, mas parecem existir situações pontuais nas quais estes dispositivos podem ser usados como alternativas eficazes.

Máquinas de extração:

Dados de literatura internacional nos mostram que mais de 80% das puérperas americanas (principalmente nos primeiros 4 meses pós-parto) extraem leite com máquinas de sucção e não amamentam exclusivamente seus
recém nascidos (RN) no peito. Desta forma, estes equipamentos tornam-se uma tecnologia essencial na tentativa de aumentar o acesso destes RN ao leite humano.

Os principais motivos para seu uso são:
(a) Prematuridade (fragilidade do sistema muscular de sucção do RN e/ou internação em UTI neonatal com
impossibilidade de mamar no peito);
(b) Separação da mãe do bebê (internação em UTI neonatal e volta ao trabalho);
(c) Armazenamento de leite humano (volta ao trabalho);
(d) outros motivos como aumento na produção de leite, parto de múltiplos, fornecimento de leite a outros RN, estabelecimento de lactação para bebês adotados, preferência/impossibilidade materna de não amamentar na
mama e mamilos invertidos.

As principais vantagens para uso das máquinas de extração são:

(a) permitir à mãe o início da lactação quando o RN não estiver apto à mamar diretamente na mama, possibilitando a elevação do volume de leite dentro da primeira semana pós-parto;

(b) permitir suprimento de leite materno para crianças hospitalizadas (especialmente em UTI NEO) – RN prematuros e com anomalias congênitas frequentemente não são aptos a mamar diretamente no
seio materno logo após o nascimento;

(c) permitir à mãe o estoque de leite e a manutenção do reflexo de produção do mesmo quando ela retorna ao trabalho .

Existem diferentes marcas e modelos de máquinas de sucção. As bombas manuais são mais baratas, mais silenciosas, mais fáceis de transportar e não requerem eletricidade ou bateria (sendo convenientes para uso em diferentes
ocasiões e locais). Entretanto, são unilaterais e tornam o processo de esgotamento mais lento. São uma ótima opção para quem extrai leite esporadicamente. Já as bombas elétricas, utilizam bateria ou eletricidade, são
mais caras, mas permitem a opção de extração das duas mamas simultaneamente, sendo que a expressão bilateral é mais rápida e extrai maior volume. Em geral, são as bombas de uso hospitalar e a preferência para mães que
extraem frequentemente e/ou que precisam de maior agilidade e dinamismo no processo.
Entre as complicações associadas ao uso das bombas de sucção, o problema mais comumente relatado é fissura mamilar. Contaminação da bomba por germes do leite materno têm sido descrita, mas é incomum com a higienização correta das partes da máquina. Mastite ou infecção materna/RN são raramente descritas devido ao uso das bombas. Como mencionado anteriormente, a literatura é bastante frágil em apoiar ou contraindicar o uso de tais ferramentas. Alguns estudos demonstram que mães que expressam leite em bombas de sucção apresentam uma taxa de descontinuação da amamentação nos primeiros 6 meses de vida do RN muito menor do que mães que nunca usaram as máquinas.

Mamilos Intermediários

Os mamilos intermediários consistem em um dispositivo de silicone fino e flexível que são colocados sobre à aréola e o mamilo maternos para proteger o mesmo e favorecer o formato mamilar, a fim de manter um padrão de forte
sucção e consequentemente o aleitamento ao peito, sem lesionar o mamilo.
Historicamente visto com “olhares desconfiados” e sendo considerado por muitos como a última opção para auxílio materno, o uso do mamilo intermediário tem sido reconhecido como apropriado e bastante útil para determinadas situações. As principais circunstâncias para seu uso são: (a) prematuros; (b) RN com alterações no tônus muscular da face e língua; (c) alívio agudo da dor mamilar (mamilos planos e/ou fissurados).

Há um enorme grau de satisfação por parte das pacientes com o uso de mamilos intermediarios e, ao serem questionadas, 88% referem sentir que esta tecnologia foi importante para a manutenção do aleitamento na mama. Além disso, 98% das pacientes referem que usariam novamente os mamilos intermediários em uma segunda oportunidade, se fosse necessário.
Assim como as bombas de lactação, existem uma variedade grande de marcas, modelos e tamanhos de mamilos intermediários.
Quanto à evidência científica, ainda existe necessidade de mais forte consistência do real benefício clínico com o uso dos mamilos intermediários.
Entretanto, quanto às suas complicações, algumas publicações nos últimos 20 anos, têm refutado as principais teses de malefícios com o seu uso, como diminuição na produção de leite e na ingesta do mesmo pelo RN.

Conchas de amamentação

Entre todos os dispositivos auxiliares de amamentação, o que apresenta uma maior escassez de dados são as conchas. Sua utilização é bastante comum nas seguintes situações:

(a) ingurgitamento mamário (expressão ductal e mamilar
constante pela concha);

(b) dor mamilar (mantém o mamilo arejado e longe do
sutiã para facilitar a cicatrização da fissura);

(c) mamilo plano ou invertido
(protrui o mamilo pela expressão constante, dando forma ao mesmo, facilitando
a sucção).

Faltam evidências que suportem ou refutem o uso das conchas, sendo esta a conclusão de uma revisão sistemática de 2014, prinicipalmente quando o motivo de utilização foi dor mamilar.
Parece que nos encontramos em um período de transição entre o NUNCA utilizar para uma prática mais MODERADA E LIBERAL quanto ao uso dos acessórios de amamentação. Embora as evidências sejam fracas, parecem existir benefícios, em determinados casos, para o uso de máquinas de extração, mamilos intermedários e conchas mamárias. É de extrema importância lembrarmos que nosso objetivo como promotores e educadores da amamentação é termos bebês humanos recebendo leite humano e, para isto ocorrer, é necessário compreendermos as habilidades e necessidades de cada mãe, bem como reconhecermos todas as ferramentas possíveis para diferentes situações. Ouvir a mãe e incluí-la na tomada de decisão são virtudes do profissional promotor do aleitamento.